domingo, 8 de junho de 2014

Angola (órfão de pátria)

Nesse teu olhar
está um futuro por descobrir
uma esperança por raiar
um país por desvendar
um mundo por sorrir

Nesse teu olhar
criança
está uma guerra por acabar
com o princípio já perdido
sem saber onde findar

Nesse teu olhar
há a fome e a tristeza
há a perda da certeza
há a profundeza do mar

Nesse teu olhar
criança
há as minas
a dilacerar
há a morte
ao teu redor
há um cheiro
podre
sem parar

Há as moscas
- nesse teu olhar –
poisadas
na tua boca
fechada
sem dizer ai
e me obriga
os olhos a desviar

Nesse teu olhar
criança
há um olhar de sofrimento
muito mais do que um tormento
sem um som ou um lamento
e me obriga a parar

Tu
criança, órfã sem razão
que deverias andar pela mão
de quem te desse protecção
mas trazes ao colo e tomas conta do teu irmão

Fizeram-te esmorecer
sem sorrir
sem crescer
esvaziaram o teu sentir
a sofrer
com a profundeza dos teus ais
ora mudos
ora letais
dessa ferida aberta
da metralha nos corpos dos teus pais.

Será que os senhores da guerra
não tiveram pais?

Fechados no seu mundo
de chocante corrupção
só com uma única mania
de enriquecerem até mais não
e ali estão
de alma vazia
sem coração
sem visão
com o futuro
fechado
dentro da mão.


LM_.09.nov.99
(antevéspera do dia da Independência)


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