domingo, 8 de junho de 2014

Catanas de vento

foto: sofia almeida



E o medo colado à pele
E a noite, húmida, mosquitos a pairar
E os corpos, vivos atirados, na vida a tirar
E o fedor no “jeep”, borrado a fel
Dos pretos, tantos os pretos, arrebanhados
Das sanzalas próximas e de outras, como gado
Nas camas a dormir ou aterrorizados
Onde tiveram como único pecado
Sentirem-se nascer, sofrer e morrer
Na terra onde os avós os viram crescer
Com um último grito, abafado na garganta
No desejo de liberdade duma manta.

E o Pide-ferramenteiro, denunciante por dinheiro
Espetava a baioneta da FBP como o sapateiro
A furar velho couro com sovela no traseiro
E o medo colado à pele
E um cheiro borrado a fel
E os mosquitos a pairar
Numa noite por acabar.

E as camionetas em fila a carregar
Os corpos ainda vivos a transportar
Eram sacas de açúcar a fingir
Sem ordem ou processo a medir.

Os tractores em valas a tapar
Todo uma noite de sofrimento e terror
Noite não igual às outras por amor
E o sentimento preso aos olhos e ao sabor
Duma terra quente e húmida de valor
À espera dos filhos seus, sem retorno
Acamados em valas, como carvão em forno.

Pelos contratados do sul seus irmãos
De fitas na cabeça e livres de mãos.
  
Era essa noite a noite de todas as noites
Era a noite sem princípio e sem fim
Era a noite mais triste que vivi por mim.
E foi a noite em que secaram as fontes.

(E o rio ali tão perto… isento de todo o afecto!)

E as lágrimas morreram antes de nascerem
E a terra vermelha, num chão de luar
Mais vermelha ficou, para os abraçar
Na ditosa vontade de se libertarem.

E o jovem, miúdo ainda aprendiz
Companheiro e amigo, até então
Desaparecido para sempre nesta confusão
Deixando o vazio naquilo que se diz
Estando em lista capturada por um triz.

Mas o medo colado à pele
Fortificado no agitar do canavial
Doce em tempo estival
- Será vento ou lamento,
Ou sussurro ou tormento?
Eram “eles” que aí vinham,
Com catanas que então tinham?

E a noite interminável. E o pesadelo eterno
Num medo assolado, criando um inferno.

O sótão, como refúgio, na administração
Carregando bala a bala toda a arma
Ensinando as crianças o novo karma
Os olhos no vazio, e na boca o coração.

(E o nome do filho de Deus
Em bondade ausente
Não se fez presente
Não protegeu os Seus.)

… Mas era só vento e escuridão!

Sem comentários:

Enviar um comentário