domingo, 8 de junho de 2014

Meu avô

Oh, meu velho…velho avô!

Oh, meu velho e saudoso quintal
Casa dos meus avós, jardim e pomar
Chão povoado do meu encantar
Histórias contadas do bem e do mal.

Bebi a cultura em sábia ternura
Enquanto no rosto cansado espremia
Pontos negros de amargura á luz do dia
Do meu avô em palavras de doce frescura.

Sentado ao seu colo sob a laranjeira
Ouvia as histórias de quem sabe encantar
Em memória culta e voz de espantar
Falava dum mundo todo ali à beira.

A “nau catrineta” e outros contos enfim
Lenda, poemas e fábulas e alguns jornais
Amarelos do tempo e nunca perdidos
Viagens tentadas, em portos vencidos
Memórias da História e estórias em memória
Contadas de fio a pavio e escutadas por mim.

Escritores e poetas do século dezanove,
Geração de oitenta, por ele conhecidos
Eram a sua sábia fonte em riqueza tidos   
Pérolas semeadas, montanha que se move.

Teve nascença de nobre na sua semente
Casa e família em Vizeu, ainda brasonada
E órfão fugiu em viagem embarcada
Para Santos, Brasil e repatriado
Sem o chão do seu sonho ter sido pisado
Tentativa falhada aos catorze anos
Repetida em sucesso mais tarde aos dezoito
Espírito culto, rebelde e fortemente afoito
Regressa infeliz e isola-se em beirã aldeia
Casa por escolha com uma camponesa
E cria os filhos, muitos, com real pobreza.



Dedica-se ao trabalho em forno de tijolos
Cultivava o fruto do tempo e a poda dos filhos
E engana a fome rasgando os trilhos
E estes partem, alguns sem voltar a vê-los.      


Vi-o a última vez, dum banco de trás
Partindo p’ra África, na velha camioneta,
Na curva do arco sem regresso da seta
E o meu olhar atirado às horas más.

Colado ao vidro e pescoço torcido
Olhava o asfalto e a velha silhueta
Como um animal tombado em valeta
Destroçada a alma e coração ferido.

Todos nós partimos e ele ficou sozinho
Com a companheira, ora desterrado
Velho, muito triste e deveras cansado
E sem receber a dádiva do nosso carinho.

Não colheu os frutos que soube enxertar
Na sábia experiência do seu madrugar.

Tive todo esse tempo de sonho e paixão
Criado num espírito de pura ilusão
Onde acreditava que o mundo era justo
E não me deixava a perda e o custo.

Hoje é a minha lembrança, memória de pó.

(o seu nome, Frederico, é o meu preferido
… e hoje acredito,que o outro, Lorca, dele era conhecido)



Fc, 30.Maio.2013 

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