segunda-feira, 30 de junho de 2014

cardos


foto: luís castanheira

são cardos, Senhora, são cardos
nos  ombros espetados em pesados fardos
e um passo penoso pairando o destino
sobre os campos de pedra e a altiva serra
com frio que medra no vento que ferra
e o sonho voando dentro do abismo
este que Vós veis já desde menino

…e o rio não nasce no tempo escolhido 

LM_ 30.jun.2014


sábado, 28 de junho de 2014

já fui...quase tudo


sofia almeida

Já fui poeta sonhador aos olhos teus, meu amor
Escrevi poemas de louvor com palavras eloquentes
E um travo doce de sabor. Foram tantas as sementes…
Do sentimento lançado ao centro do teu regaço acolhedor.

Já fui garça branca em flor voando o perfume e a cor
Nos cachos de fruta ao redor do corpo vertical e o sol a pôr
E nos teus lábios a palavra amor. Oh como é e se sente
A paixão palpitante de ser ausente e estar presente.

Já fui arquitecto desse projecto: vida a dois, sorriso aberto
Uma paixão a transbordar da minha mão. E essa construção
Fez-se então. Estrada fora num passado que é agora mão-a-mão
A caminho do futuro onde estaremos seguros e ali bem perto.

Já fui viajante nas palavras. Por dentro delas expulsei a solidão
As terras que cultivei eram áridas,
mas cruzei -as com suor em noites cálidas.
- e era tão fácil deixar-me seguir rio abaixo em turbilhão…! -
O luar de Agosto espelha-se na visão constante do teu rosto, 
os olhos negros e as faces pálidas.

Já fui o teu porto de abrigo onde ancoraste o teu sentido.
A tormenta adolescente desse perigo. Chegaste e em mim paraste
E em mim hás-de ficar. Não mais terás esse caminho perdido
Não mais estarás sós - duas mós, moinho d’água onde ancoraste.

Já fui pintor da alma em suaves tons, quadro indelével da vida
E fiz chegar em doce harmonia o som do mar aos teus ouvidos
Esse mar com o condão de acalmar os demónios d’alma ferida.

Agora, vou-me banhar na noite envolvente do teu amor
e não dês os nossos tempos por perdidos, por favor .

LM_21.jan.2014


amar

foto: luís m castanheira

amar... a alma armar

ser e estar sem desatinar

presente som, em hora ausente
olhar e ver       o outro na mente
e nele se rever como o melhor da gente.


LM_12.dez.2013


estrela

foto Nasa




Há no ar um doce cheiro de luar
Uma suave luz que a ti me conduz
Um desejo premente de ver e olhar
Olhar que me vê no amor que produz



Há milhares de estrelas à vista de vê-las
Mas, ao contrário delas, tu és bem agora
Não te quero perder, nem a elas perde-las
Vocês ficam bem no horizonte da Aurora.

E, não fora o caminho, longo do destino
Levava-te a elas, com todo o carinho
Como uma bandeira de fiel peregrino
E aí igualavas na luz emanada do teu arminho,
Branca como o linho.


LM_12.dez.2013




fantasmas

foto: sofia almeida

Meigo e doce luar
a noite vens acalmar

acalma-me a alma também

fantasmas que ela contém.

LM_12.dez.2013


quinta-feira, 26 de junho de 2014

espelho

luís castanheira
No lugar do outro
como num espelho
no extremo da vida
olho para trás
e vejo-me nu.

Despido de mágoa
sem pinga de água
seco como um rio
em deserto frio.

Sou um imbomdeiro
carregado de mukua
a minha acidez
provém da aridez
na terra que pariu
em chão que ruiu
debaixo dos pés
tudo de revés.

Sobrevivo ao tempo
com a secura do vento
olho a planície
de imenso capim
à espera de incêndio
que lhe ponha fim.


LM_17.maio.2013


pomba negra

foto: sofia almeida


olho a cidade despida
oca e quase perdida
as ruas desertas de vida
na crise por todos sentida.

mas eis que sobre mim voa
uma pomba negra sem coroa
rainha desta avenida
linda como é a vida.

pomba negra voando na avenida
és a mais bela na minha vida
planar de elegância e vitalidade
dá a esta pobre realidade
cidade vazia de gente e perdida no presente
uma vivacidade que retenho na minha mente.

é um domingo de Abril
na recordação de cravos mil
memórias um pouco esquecidas
nas gerações ora perdidas.

LM_


quarta-feira, 25 de junho de 2014

A luz


foto: luís m castanheira

I

Passa por mim o pecado
O momento ora parado
De não estar a teu lado
Dar-te a mão, ser-te amado.



II


À luz dum candeeiro
Na rua do meu desejo
És figura por inteiro
És o sonho que almejo.

Rua da minha cidade
Onde a noite é ternura
Espalha-se uma saudade
D’outras noites de ventura.

Sombras… são só sombras
Ou serão folhas de vento
Não certamente serão pombas
Talvez penas do meu tormento.

Mas a rua é bem iluminada
Não vejo razão nessa ilusão
Espero o amanhã, por nada
Que não seja a tua visão.


LM_19.nov.2013






terça-feira, 10 de junho de 2014

pérola

fotos: sofia almeida e luís m.castanheira

Meu poema lavra
Numa só palavra

Com dedo espetado
Escrito na areia
Em praia molhada
Batida pela onda
Num mar de sereia
Este lindo fado.

Dilui-se o teu nome
Na espuma do mar
E aguarda o pronome
Para te abraçar
Diz o oceano
Que te quer levar
Que te quer amar…

Estendo os meus braços
Para te agarrar
És a minha pérola
E não posso deixar.
Fica no meu sonho

Não te deixes rasgar!

LM_08. mar.‘13


o riso

O riso apagado no teu rosto molhado
lágrima ácida dum pensamento presente
retido e só nalgum canto lembrado
bem fundo do ser e da mente
ou na vida amada que entretanto passou
em que esse tempo parou

quem sabe?

O teu riso apagado no rosto molhado
penso que seja um rosto presente
que traz à lembrança o rosto da gente
ou da vida amada, outrora premente
e hoje aqui está num tempo parado.

Sentir o Sol quente de Inverno,
olhar as colinas despidas de manto
e ver-te, tão perto, tão fria e distante.

Parece-me ontem, a sentir o encanto
que ainda esperta como um eterno amante
que ainda consola, que ainda transpira
que ainda respira

E vejo-te nua
e vejo-te linda
e vejo-te, como eu nunca te vi:
sozinha e insegura
olhando o vazio, muito triste, ainda
como se eu não estivesse aí
junto de ti.

Meu amor... deixa-me sair deste inferno!


LM_11.mar.97


"INDIA"

Fui ver a tua casa
Antiga
Bem perto da minha
Perdida
E veio-me à lembrança
Amiga
A tua voz
Sentida
A cantar uma canção
Antiga
Numa tarde parada
Em que escurecia
Mas a hora ficava
E não amanhecia

Era a voz Bahiana
Melódica
Que me comovia
E ouvia
Aquela canção
Preso à tua mão
Pela tarde que se ia
Como se já fosse outro dia
E o mundo parasse
Acabasse
Onde eu me perdia

Por junto ao regaço
Dava-te um abraço
Sentia o teu laço
E tarde comia
Porque adormecia
No amor que sentia
E a ti pertencia.


LM_10.Dez'97


Brisa

foto: sofia almeida

vem
vem, meu amor
vem
vem ver o mar
vem

sentir a doçura deste lugar
ver as estrelas
cheirar o ar
que a noite é nossa
e nada pode calar
este silêncio
do nosso amar

tardes do meu acordar
manhãs deitado a dormir
sonhos do meu despertar
que a vida é feita a sentir

e só assim se pode amar

LM_8.abr.2014


Ar

luís m castanheira

oh flor, oh doce amor               
oh regaço do meu enlaço
oh abraço
que calor
que sabor
que odor
desprendes ao teu redor.

e eu
preso a ti
aqui
por ti
respiro
essa vida
exalada
amada
medrada
que me tira do nada.


LM_ 01.10.97


Angústia

 luís m castanheira


Tristeza tamanha
Que me gela o coração
Sinto a chuva a cair na sepultura
Onde repousam os meus sonhos,
Mortos e enterrados,
Como uma ave caída,
Desamparada,
Após fulminada
Por tiro assassino
De quem fere sem alma.

Sinto os meus sonhos desfeitos,
Arrancados por mão tenebrosa,
Esventrado que fico,
Ao sabor deste vento norte.

E eu que era riso,
Tão cheio de Amor,
Tão forte,
Tão leve e radioso.
Hoje,
Essa minha alegria de outrora
Esfumou-se
Perdida
Na longitude da dor.

Hoje,
Parece que não existo.
Só sombras povoam os meus pensamentos.
Hoje,
É assim que estou... e que fico.

E amanhã ?
Como será o meu amanhã... ?


LM_08.abr.2014


amigo sem abrigo

foto: luís m castanheira

Amigo, sem amigo, sem-abrigo
Que carregas tanto peso contigo
Tens o descanso não permitido, indesejado
Dentro das arcadas dos prédios ora gradeadas.

O teu sono é pernicioso, é escorraçado
Tens de seguir para outras paradas
Tens de iniciar novas viagens
Ao interior dum corpo já muito cansado
E alma vazia, abandonada
Esfacelada.

Partes…, mas eu fico
A ver o inverno da minha mágoa.


LM_14.abr.2013


domingo, 8 de junho de 2014

Angola (órfão de pátria)

Nesse teu olhar
está um futuro por descobrir
uma esperança por raiar
um país por desvendar
um mundo por sorrir

Nesse teu olhar
criança
está uma guerra por acabar
com o princípio já perdido
sem saber onde findar

Nesse teu olhar
há a fome e a tristeza
há a perda da certeza
há a profundeza do mar

Nesse teu olhar
criança
há as minas
a dilacerar
há a morte
ao teu redor
há um cheiro
podre
sem parar

Há as moscas
- nesse teu olhar –
poisadas
na tua boca
fechada
sem dizer ai
e me obriga
os olhos a desviar

Nesse teu olhar
criança
há um olhar de sofrimento
muito mais do que um tormento
sem um som ou um lamento
e me obriga a parar

Tu
criança, órfã sem razão
que deverias andar pela mão
de quem te desse protecção
mas trazes ao colo e tomas conta do teu irmão

Fizeram-te esmorecer
sem sorrir
sem crescer
esvaziaram o teu sentir
a sofrer
com a profundeza dos teus ais
ora mudos
ora letais
dessa ferida aberta
da metralha nos corpos dos teus pais.

Será que os senhores da guerra
não tiveram pais?

Fechados no seu mundo
de chocante corrupção
só com uma única mania
de enriquecerem até mais não
e ali estão
de alma vazia
sem coração
sem visão
com o futuro
fechado
dentro da mão.


LM_.09.nov.99
(antevéspera do dia da Independência)


jardim...

Oh flor, oh flor do meu amor
Meu doce calor, cheiro e sabor
Meu jardim interior, sol e esplendor
Minha luminosa cor.
Meu paraíso sem dor.


LM_Abr.2013


Palavra-poema

Já poeta não sou
Já o sonho findou
Já as palavras gastei
As acendalhas apaguei
Já as muralhas destruí
E de mortalhas cobri
Já a vida findou
E onde o rio secou
Já a esperança morreu
E o mundo cedeu.

Mas é tempo de voltar
E é tempo de pensar
É tempo de criar
E é tempo de amar.

Deixar a palavra renascer
Deixar o mundo girar
Dar esperança ao entardecer
Num outro amanhecer.

Levanta-te poema
Grita aos quatro ventos
Que já não tens pena
Já não sentes lamentos.

Novas palavras correrão na planície
O sol encantará toda a tua meninice
Dar-te-á força nessa segunda caminhada
Descobrirás a natureza e a razão da coisa amada.

Poema, agiganta-te
Abandona a medíocre e ignóbil pobreza
Cala a fome da criança infringida e sofredora de tal vileza
Transforma o teu acto em sentida e verdadeira nobreza.

Poema,
Dá-te ao sonho, à felicidade e à riqueza
Dá-te à esperança, à luz e à beleza
Deixa a tua seiva escorrer pelas veias do teu ser
Deixa-me encontrar-te de novo. Não mais te perder.


LM_13-03-2013


sem valor acrescentado

escoam-se as águas
perdem-se as mágoas
desertos interiores
dos nossos valores.


LM_15-mar-2013


viagem

foto: sofia almeida

















Trazes nos olhos a branca espuma
Em marés vivas no meio da bruma
Trazes um mar por mim inventado
Sob um céu límpido e encantado.

Trazes o voo em sonhos planado
O amor construído e desejado
Trazes a voz a rasgar horizontes
Saltando por cima dos montes
- das serras, vales, rios e pontes -.

Trazes nos lábios o sorriso aberto
Inicio viagem num presente perto
Parto dum porto de cais profundo
Venço o espaço, o tempo e o mundo.

foto: luís m castanheira
Tenho -te presente em cada momento…

Em cada palavra que não digo
Em cada poema que não escrevo
Em cada pensamento perdido
Em cada sentimento sentido.

Rasgo a solidão, o medo e o perigo
Só quero a cada momento estar contigo.


LM_mar.2013


“Liberdade” (canção)


Fechem os palácios e os jardins
Murchem as rosas e os jasmins
Retirem os cravos das espingardas
E não mais gritem novas alvoradas.

Retirem os cravos das espingardas
E não mais gritem novas alvoradas.

Façam o que hoje é premente
Juntem à vossa volta toda a gente
Venham ocupar as ruas e a cidade
Libertem a Liberdade.

Venham ocupar as ruas e a cidade
Construam uma nova realidade

Eu quero fazer parte dessa verdade

Libertem a Liberdade.

Chega de enganos e tormentos
Mentiras, promessas e sofrimentos,
Os sonhos constroem-se em momentos
Gerados por generosos movimentos.

Os sonhos constroem-se em momentos
Gerados por generosos movimentos.

Chega de enganos e tormentos
Mentiras, promessas e sofrimentos.

Chega de enganos e tormentos
Mentiras, promessas e sofrimentos.

Libertem a liberdade!


LM_ 6.out.2012



Viva a liberdade


foto: luís m castanheira
Fechem-se os jardins
Apaguem as rosas e os jasmins
Os cravos desenterrem-nos das espingardas
E não gritem novas alvoradas.

Façam o que hoje é premente
Libertem a Liberdade

Juntem toda a gente
E venham para as ruas ocupar a cidade.

Construam uma nova realidade.
Eu quero fazer parte dessa verdade!

Chega de enganos e tormentos
E de tantos sofrimentos,
O sonho constrói-se em momentos
De todos os movimentos.

LM_ 6.out.2012





Catanas de vento

foto: sofia almeida



E o medo colado à pele
E a noite, húmida, mosquitos a pairar
E os corpos, vivos atirados, na vida a tirar
E o fedor no “jeep”, borrado a fel
Dos pretos, tantos os pretos, arrebanhados
Das sanzalas próximas e de outras, como gado
Nas camas a dormir ou aterrorizados
Onde tiveram como único pecado
Sentirem-se nascer, sofrer e morrer
Na terra onde os avós os viram crescer
Com um último grito, abafado na garganta
No desejo de liberdade duma manta.

E o Pide-ferramenteiro, denunciante por dinheiro
Espetava a baioneta da FBP como o sapateiro
A furar velho couro com sovela no traseiro
E o medo colado à pele
E um cheiro borrado a fel
E os mosquitos a pairar
Numa noite por acabar.

E as camionetas em fila a carregar
Os corpos ainda vivos a transportar
Eram sacas de açúcar a fingir
Sem ordem ou processo a medir.

Os tractores em valas a tapar
Todo uma noite de sofrimento e terror
Noite não igual às outras por amor
E o sentimento preso aos olhos e ao sabor
Duma terra quente e húmida de valor
À espera dos filhos seus, sem retorno
Acamados em valas, como carvão em forno.

Pelos contratados do sul seus irmãos
De fitas na cabeça e livres de mãos.
  
Era essa noite a noite de todas as noites
Era a noite sem princípio e sem fim
Era a noite mais triste que vivi por mim.
E foi a noite em que secaram as fontes.

(E o rio ali tão perto… isento de todo o afecto!)

E as lágrimas morreram antes de nascerem
E a terra vermelha, num chão de luar
Mais vermelha ficou, para os abraçar
Na ditosa vontade de se libertarem.

E o jovem, miúdo ainda aprendiz
Companheiro e amigo, até então
Desaparecido para sempre nesta confusão
Deixando o vazio naquilo que se diz
Estando em lista capturada por um triz.

Mas o medo colado à pele
Fortificado no agitar do canavial
Doce em tempo estival
- Será vento ou lamento,
Ou sussurro ou tormento?
Eram “eles” que aí vinham,
Com catanas que então tinham?

E a noite interminável. E o pesadelo eterno
Num medo assolado, criando um inferno.

O sótão, como refúgio, na administração
Carregando bala a bala toda a arma
Ensinando as crianças o novo karma
Os olhos no vazio, e na boca o coração.

(E o nome do filho de Deus
Em bondade ausente
Não se fez presente
Não protegeu os Seus.)

… Mas era só vento e escuridão!

Liberdade é vontade (Há um grito na cidade)

Encerram-se os jardins
Murados dos palácios
As rosas aprisionadas
E outras plantas afins
Longe das vistas vedadas

Comemora-se a liberdade
De gente sem vontade
Fica de fora a verdade
Desta triste realidade

A crise permite tudo
E o povo fica mudo
Tiram-lhe da boca o pão
Roubam-lhe o último tostão
Nem sequer fazem sermão.

Tiram-lhe também a esperança
Na ideia da mudança.

Levantai-vos oprimidos
Acabem com vossos gemidos
Dai um forte golpe de rins
E ocupem esses jardins.

Cheirem todas as flores
Reparem nas belas cores
E façam delas vossos amores.

LM_25.abr.2013 (sempre)


translúcido


lábios finos de vento
em rajadas de sofrimento
velhas e rústicas botas
calçadas em pensamento
cada frase um tormento
em barragem de altas cotas.

valha-nos o fundamental
no meio do temporal
guarda-chuva de conquista
padrão erguido do chão
e uma resposta em calão
- não lhe dêem mais alpista !

… amanhã… ah!…

há sempre um amanhã
e a voz não enganará
os lobos não terão lã.


LM_ hoje, 28.maio.2014

(triste data)


Terra Nova

Tempos de escravatura
na pesca do bacalhau
terra nova de desventura
e um tenreiro feito mau.

Nas guerras coloniais
para não irem à tropa
serviam os senhores da frota
embarcavam, filhos e pais.

Sete anos de servidão
comendo sopas e pão
Gil Eanes, o barco hospital
de apoio aos desgraçados
sem anestesia, tira-dentes
como se fosse dum animal
e ao trabalho logo lançados.

Era pesca feita à linha
em botes individuais
e não se fazia farinha
com almirantes ou generais.

Logo estava à espera a pide
no porto de desembarque
caso houvesse queixa na lide
por qualquer chefe de fraque.

A reforma era a miséria
quando velhos e cansados
e as viúvas ficavam à espera
de desaparecidos destes fados.

Exemplo dado era agraciado
por quem olhava sobranceiro
mão flácida, visando p’ro lado
o pescador, mais um carneiro.

Ah, triste de quem nasceu pobre
em tempos de escravidão
a vida enriqueceu o nobre
e morreu num simples caixão.

LM_18.fv.2014



reflexão

Sábios são os rios na escolha dos seus cursos
Não há mentira pior do que a meia verdade
Não há hipocrisia maior do que a falsa caridade
Também uma pedra da calçada poderá ser amada
Ente o espaço que há em nós, existe silêncio a sós
O sentimento de mim é um caminho levado a ti.


LM_6.jul.2013


reflexão II





Foto: Luís M. Castanheira
Na margem do rio
em frente á lezíria
há um suave retiro
na Povoa de Santa Iria

Meio-dia. O sol já cresce
como a gente presente,
a primavera aparece
cedo, logo à minha frente

Lá ao fundo esse rio
resplandecente e sadio
o Tejo a correr em seu brio
como um sonho que adio

É esse Tejo meu desejo
o sentido no que vejo
voz de sereias clamando
águas serenas chamando


e todas me pedem afagos
abraços profundos de lagos

agora não as quero ouvir
outras coisas tenho a sentir

…mas como seria
se não estivesse à espera
da doce Sofia?

LM_manhã, domingo, 16. Março. 2014





do nascer à morte

Reafirmo agora toda essa esperança
Dum caminho novo para lá do desejo
A paixão retida que eu já não vejo
E o amor-destino nesta confiança.

Presente sereno no vazio desértico
Sigo o sonho num vasto horizonte
Atravesso o rio pelo meio da ponte
E na outra margem fica a liberdade.
Um grito ecoa por toda a cidade
Escrevo com sangue um canto poético.

Das máscaras no rosto soltaram-se amarras
Deixei de fingir, tenho-me como um todo
Encontros e desencontros fizeram-me mais forte
Racional no modo, estou cheio de sorte.
E as emoções…? Ficam ilusões.
Construindo a alma no tempo corrido


Do nascer à morte!

LM_25.jun.2013


o rio e o amor

Quero saber onde este rio foi nascer
Vou caminhando já cansado no dia ao entardecer
Mas lá hei-de chegar às terras altas do amor
E para sempre descansar na busca incessante dessa flor.


LM_4.jun.2013



...e então?

scaner: luís castanheira
(redescobri uma velha tecnologia
 e a beleza da minha caligrafia...)


quem me lê ?
que me vê ?
ninguém …

ninguém diz porquê
talvez por nada haver
para dizer
talvez ter no meu ser
um vazio de enternecer
ou, quem sabe
nesta nave
as palavras serem ocas
não chegarem a orelhas moucas

têem razão…

(pois então)

eu também acho
(que diacho)
que elas, palavras
devem sair do coração
plantada no estio do verão
esta minha seara
sêca pela seca
(com a breca)

e no chão essa palha
da palavra como falha
no sentido e conteúdo
que se espalha a miúdo.


LM_06.mai.2014



quem sabe...

Que valor podem ter
Escritos que ninguém pôde ler?
Guardados numa gaveta
Ou perdidos na sarjeta
Como é que vamos saber?
E o autor? Tem alguma grandeza?
… só para si mesmo a pode ter.
Mas tenho para mim
Que nada se deve perder
E o mérito, esse, existe e ainda pode crescer!

LM_13.jun.2013


a tua alma

Que se passa contigo? 
O que é que te vai na alma?
Que pensas dentro da tua solidão?
Que te leva ao silêncio e olhares 
o mundo em péssima obsessão?
Vês-me como o inimigo 
que tens sempre aqui à mão.
Atiras-me uma ou outra palavra 
ofensiva e sem razão.
Perdoo-te e tento ignorar a intenção
Mas fica-me a tristeza em mágoa. 
Partes-me o coração.
Vejo-te desamparada, 
vazia e em queda acentuada.
Sonho a alegria de tempos
findos e tudo se derrete
Tudo foge entre os dedos da mão. 
És areia apertada sem coesão.
Quanto mais cresce a tua aflição
mais se desmorona a duna soprada pelo vento.
Espalhando a árida tempestade. 
Secando à sua volta a vegetal saudade.
E não soltas um queixume 
ou um simples lamento. 
Fica tudo para dentro.
Mas desta vez, rara vez,
pediste-me perdão…
e eu quero acreditar que não é em vão.

LM_15.jun.2013