segunda-feira, 25 de agosto de 2014

o meu velho avô

- oh, meu velho…velho avô!
meu longínquo e saudoso quintal
casa dos meus avós, jardim e pomar
chão povoado do meu encantar
histórias contadas do bem e do mal.

bebi a cultura em sábia ternura
enquanto no rosto cansado espremia
pontos negros na amargura do dia
do meu avô em palavras de doce frescura.

sentado ao seu colo sob a laranjeira
ouvia as histórias de quem sabe encantar
em memória culta e voz de espantar
falava dum mundo todo ali à beira.


então menino, vi-o a última vez
do banco de trás da velha camioneta...


colado ao vidro e pescoço torcido
olhava o asfalto e a velha silhueta
como um animal tombado em valeta
destroçada a alma e coração ferido.

todos nós partimos ficando sozinho
com a companheira, ali desterrado
velho, muito triste e deveras cansado
sem receber a dádiva do nosso carinho

(hoje é a minha lembrança; o seu nome, Frederico)

(fraguemento)




luzes na escuridão

o que dizem os teus olhos
em voos de assombração?

trémulas luzes vertidas
em dois planetas de mar
que não querem navegar

perscrutam o meu coração
nas memórias já perdidas
planam como dois faróis
em ausências já sentidas
nas sombras de extintos sóis.





sexta-feira, 22 de agosto de 2014

límpida a madrugada

era belo o sonho intenso e puro
criado ao longo da noite de frio
onde a madrugada sempre adiada
tardava em primavera acordada.
mas o sonho desenraizou-se do muro
desfazendo-se no leito do rio
e a enxurrada desceu à cidade
lavando-a de toda a sujidade.

hoje, novos muros são levantados
aprisionando outros sonhos alados.



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

lá longe...

foto luís castanheira

As estrelas que eu vejo não são as mesmas
que tu quando parado vês olhando o chão
esta terra que os pés te beijam já nos deu pão
mas agora cá longe dá-nos tristezas 
... e solidão
não, 
não são as mesmas, essas estrelas que eu vejo
e tu não
- não, não são!

Tu olhas cabeça baixa onde o céu é o teu chapéu
e à tua volta é um deserto nas ideias e no concreto
afogas a pouca esperança e a confiança, isso eu veto!
tomara eu poder mudar o que não é meu
tomara eu...

(vou dar um passo, ler os clássicos onde está tudo...
mas posso dar-te aquele abraço! )


terça-feira, 5 de agosto de 2014

oleiro

foto luís castanheira

De fino barro moldaste
e o futuro torneaste.
Oleiro de corpo inteiro
olha a obra acabada
criaste uma alvorada
na subida do outeiro.

Pobre terra de emigração
onde caminhei pela mão
fui contigo em pensamento
em terra de novos horizontes
e sem haver tantos montes
voei livre como o vento.

Já não sei por onde paras
mas hoje recordo o tempo
das feridas que já não saras.


LM_17.fev.2014