sábado, 19 de dezembro de 2015

as irmãs

em cama partilhada
(mais precisamente, em camas encostadas)
deitadas a meus pés a vida corre adormecida.

são dois seres, que sendo irmãs,
têm uma diferença de idades de meros meses.

uma, ainda bébé, procura o aconchego da mais velha
e geme suavemente.

tapo-as delicadamente e com um simples afagar de mãos, acalmo os pesadelos
da mais nova.

tiveram um dia completo e agitado, mas foi linda esta aprendizagem.


sim, o milagre da vida está mesmo aqui, aos meus pés: duas cachorrinhas, a Shiva e a Lyra, ephanol breton.

contudo nunca me esquecerei do meu velho cão, saudoso Boss.


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

a cotovia



I
dispersa melodia
sem origem ou fim
cântico da cotovia
chegado até mim.


aos meus ouvidos
chega e instala-se
pulsando os sentidos
na memória de ti.


a ponte cala-se
na neblina outonal
e as margens dispersas
perdem-se no horizonte.


lá longe a tormenta
em vagas sopradas
e o ar torna-se mar
cheirando a sal.


tudo é agreste
e o vento é um teste
ao equilíbrio mental.


II
impulsos sentidos
da memória por ti
espalham-se perdidos
margens que não vi.


em vagas sopradas
o ar é um mar
com cheiro a sal.


já não há arcadas
nem já tenho lar
mas não é esse o mal
ele há-de chegar.


vou como as gaivotas
voar para terra
há ideias mortas

lá longe na serra.

quero liberdade
doce melodia
estar à vontade
mas ter companhia.


lmc

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

a ilha_II

ilha deserta
dos meus amores
perdida
no tempo esquecido
só as lembranças ficam
de dores
no arquivo
do que tinha querido.


e tanto era
que nem por isso dera
e tanto foi
que nem por isso já é.


correntes da fera
mar que me viu chegar
e me viu partir...
foragido
dum crime não cometido
e do amor
entre as sombras
do destino.


mar... sem par
de concha fechada
no último suspiro
findo
onde a luz incide
focada
mas afundada
ao lado do areal
e não se olha
não se rapara
é qualquer coisa banal
extinguida ao pensamento
como chuva torrencial
escoada por entre areia
vincando um rasto
ou lamento
entre os coqueiros e o matagal.


aí estás,
diferente do que eras
minha
tão mudada na invasão
tão suja
que pareces
tão triste da multidão.


olho-te
na memória mais rebuscada
e como um sonho parado
não vejo a alvorada
a cor
e o cheiro anelado
abraço desfeito
do enlaço
que foi nosso
sentido a cada passo.


aquela ilha
tão pura
harmoniosa
natura
já é passado
no preciso momento
começado e acabado.


tenho-te num abraço
apertado
mas já não estás
já não és
levou-te o vento
como me leva o pensamento
para longe
mum tormento.


adorava ficar
mais tempo
aconchegado
à memória
tirar partido
dum só momento
que dos teus lábios
presos
saíssem gritos de contentamento
do amor que foi
mas nunca o cheguei a ter.



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

2011-2015_eleições

mentiras
tantas as mentiras 
as mesmas ou antigas
repetidas
armas das minhas feridas.

(a arte de enganar)




quarta-feira, 9 de setembro de 2015

as redes

sob as asas negras do ódio
há sombras de tempestade
voam em círculos fechados
lançando toda a maldade e
nas feridas, cloreto de sódio
penicando os desgraçados.

há redes que nos apertam
- sentimentos ali deixados -
e as feridas ficam expostas
nas balas que quase acertam
e eles, mesmo estando calados
têm palavras em letras mortas.

...esquecem os êxidos  da História.







terça-feira, 1 de setembro de 2015

porque é sexta-feira...



é sexta-feira, dia de feira, ou talvez não...mas que canseira
parte-se em viagens imaginárias. fim-de-semana aqui à beira
longe de tudo, longe da semana que chega ao fim 
todo um pesadelo a passar por mim.
encolhem-se as horas e a demora. fica-se à espera de qualquer coisa
pelo dia fora. há a esperança, numa bonança, no euromilhões,
deixa-se o trabalho a descansar, onde haveremos de lá voltar
se ainda existir, no meio da crise que tudo veio abalar
e, no fim do mês, por cada mês, traz-se para casa mais uns tostões
que nunca chegam para os desejos acumulados e serão gastos em obrigações
pois..., sem ser eleito ou nomeado, pensa-se o dia, como um deputado,
(ter de fugir ao rebuliço dos interesses). vamos lá ver se o domingo não sai furado...





quarta-feira, 5 de agosto de 2015

6 de agosto

fazes anos, meu pai, amanhã 
num dia que para ti seria alegria
mas para outros já amanhã 
não haveria. lembro-me sempre
e em cada ano fico alegre e comovente
mas também triste por teres nascido
na data em que o mundo parecia perdido.

crianças de cristal

terra do sol nascente
foste poente
na loucura de muita gente.

quantas crianças de cristal
desapareceram nesse vendaval?

outro sol

o sol brilhante faz-me lembrar outro amante
aquele que olhando a terra queimada
só vê a ausência volatilizada da sua amada
na penumbra nuclear devastadora e penetrante.

hiroshima_nagasaki

amanhã, 
seis de agosto
setenta anos já passados
e no meu rosto
há ainda cicatrizes 
de outros.




sábado, 1 de agosto de 2015

a ilha_I

ilha deserta dos meus amores
perdida no tempo esquecido
ficam só lembranças de dores
arquivo do que tinha querido

e tanto era que nem por isso dera
e tanto foi que nem por isso dói
preso às correntes da espera
mar que me viu chegar
e me viu partir...qual foragido
qual criminoso do amar

nas sombras do destino
mar de concha fechada
num último suspiro findo
onde a luz incide focada
afundada, ao lado do areal
e não se olha, não se rapara
como qualquer coisa banal
se extingue ao pensamento
debaixo de chuva torrencial
vincando um rasto ou lamento
entre os coqueiros e o matagal.

aí estás,
diferente do que eras minha
tão mudada na invasão
tão suja que parece tinha
e tão triste da multidão

olho-te
na memória mais rebuscada
e como um sonho parado
perco o retoque da alvorada
a cor e o cheiro anelado
abraço desfeito do enlaço
que foi nosso,
sentido a cada passo.

aquela singela e pura
aquela harmoniosa natura
já é passado no preciso momento
começado e acabado.

tenho-te num abraço apertado
mas já não estás, levou-te o vento
agora, vejo-te longe em memória
onde me leva o pensamento
vã existência, em tão curta história
lá, onde só existe tormento.

adorava ficar mais tempo
aconchegado a uma causa
tirar partido dum só lamento

que dos teus lábios presos
saíssem gritos de contentamento.









quinta-feira, 30 de julho de 2015

porta sul

Porta Sul

dois cinzeiro encostados à entrada
com 'beatas' apagadas sobre areia,
na mão um saco de papel na recolha
das 'pontas' de tabaco entre os dedos
apalpados com cirúrgica perícia na escolha:

eis dois mendigos viciados de lisboa.

lisboa, centro comercial 'colombo', 27.jul.2015
lmc

terça-feira, 7 de julho de 2015

gestação



minha mãe, quando eu nascer
não quero ver, 
não quero ver
esse teu rosto, lindo
a padecer.
oh minha mãe, quando eu nascer
deixa-me olhar-te
e um beijo dar-te
porque mereces
por tantas preces
em me conceber.

minha mãe, quando eu nascer
quero só ser,
quero só ser
o teu menino no teu viver
sentir o cheiro
do teu suor
sentir o labor
de tanto amor.

minha mãe, oh minha mãe
quando eu nascer
dou-te um sorriso
em recompensa
de tanto em querer
um filho ter.

E, mãe querida
se adormecer
sara-me a ferida
por não nascer.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

em cada dia




sobre primaveras suspensas do olhar
pairam densas nuvens cinzentas
firmamento que escurece a cada andar
mas tentas…
em cada patamar
esforço desumano para o céu abraçar

e nesse olhar
não há esperança
não há lembrança
de um dia lá poderes chegar

…cada dia
é para te matar.


Lm_02.jul.2015




soneto de amor


fotoLuísM


página em branco de encanto
tão branca, pura e silenciosa
serve de sonho ao teu pranto
manhã que te penso amorosa

com ela desenho uma lágrima
caída do rosto em desengano
mancha dum poema em rima
como o tempo desenha o ano

fico triste por não saber
o que faria ou que faço
para melhor compreender

mas a impressão plasmada
que deixas no teu encalço
não é partida, é chegada





quinta-feira, 25 de junho de 2015

as horas



as horas

passam lentas as lentas horas lentas
tão lentas que nas madrugadas acordadas
de tão lentas
parecem paradas.




segunda-feira, 8 de junho de 2015

entre margens

olho as estrelas por dentro do meu ser
numa viagem ao passado daquele mar
e bem profundo há uma espécie de luar
reflectindo-se na estrada que vim a ter.





sexta-feira, 29 de maio de 2015

o caminho


Podem chamar-me lá de longe
pelo meu nome ou pelo brilho
do rasto pisado em cada trilho;
podem querer-me bem por perto
saberem o que tenho como certo
ao olharem-me o rosto já cansado
porém, neste caminho já marcado
só sei da paz que há num monge.

e tudo de bem ou de mal que fiz
estou consciente de que o quis.

LMC



quarta-feira, 8 de abril de 2015

beijos amargos

beijos amargos

os tempos mudaram e às mulheres
já os beijos não são roubados,
são sequestrados ou assassinados, 
outras vezes,estilhaçados; às mulheres 
já só não se bate com uma flor,
bate-se com o ferro de engomar,
de qualquer jeito, com o que estiver à mão...
quem é que a mandou amar;
de quem é a culpa de ter filhos,
trabalhar em casa e por aí fora
de andar cansada de tanto transporte
- horas perdidas e no corpo sentidas -
quem tem de aturar o chefe
homem, pois claro, que passa a vida
a espreitar as oportunidades
ver se pesca em águas paradas;
quem tem de contar o magro salário,
chegar ao fim do mês e pouco dever;
quem tem medo de perder o emprego,
por outra vez estar grávida
- ai se descobrem, vou p'ro meio da rua! -
e logo agora, com o marido desempregado,
aos caídos, já sem subsídio?
e tem sido tão difícil, aturá-lo...
agora dá-lhe p'ra beber, 
não sei onde vai arranjar o dinheiro,
más companhias, lá isso, ele tem...
mas se o deixo, vai atrás de mim
até ao inferno (como se eu não vivesse
já no inferno), e tudo pode acontecer...
 mas que triste sina a minha;
a minha mãe é que tem culpa disto tudo:
pariu-me e fui atirada para esta vida,
sem poder escolher;
agora que futuro poderei deixar aos meus filhos?,
olhos-os e revejo-me neles, como me revejo
na pobreza que sempre me acompanhou;
cresci no meio de tantos irmãos, 
alguns foram ficando pelo caminho,
que a fome era uma barreira;
hoje desabafo, melhor, hoje grito
porque no peito dorido nada mais há.
já nem as telenovelas e o raio que os parta
me servem de consolação,
onde é que eu tenho tempo p'ra me sentar?
deito-me p'ra descansar, 
mas a noite deixar-me-á neste pesadelo!

Luíz M.Castanheira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

paisagem ao amanhecer...

foto: sofia almeida_Gerês
Quando a paisagem herda os olhos de quem a vê
torna-se mais bela ao amanhecer.

Dizem que poderemos ver, em cada gota de orvalho,
a nossa própria Alma;
em cada folha caída, uma sombra do passado;
em cada pedra rolada, um destino inacabado; e,
nas margens de um rio, uma árvore do nosso Fado.

Também, no intervalo dos silêncios, aos ouvidos,
chegarem-nos os sons de quem amamos.

Será verdade?