quarta-feira, 7 de outubro de 2015

a cotovia



I
dispersa melodia
sem origem ou fim
cântico da cotovia
chegado até mim.


aos meus ouvidos
chega e instala-se
pulsando os sentidos
na memória de ti.


a ponte cala-se
na neblina outonal
e as margens dispersas
perdem-se no horizonte.


lá longe a tormenta
em vagas sopradas
e o ar torna-se mar
cheirando a sal.


tudo é agreste
e o vento é um teste
ao equilíbrio mental.


II
impulsos sentidos
da memória por ti
espalham-se perdidos
margens que não vi.


em vagas sopradas
o ar é um mar
com cheiro a sal.


já não há arcadas
nem já tenho lar
mas não é esse o mal
ele há-de chegar.


vou como as gaivotas
voar para terra
há ideias mortas

lá longe na serra.

quero liberdade
doce melodia
estar à vontade
mas ter companhia.


lmc

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

a ilha_II

ilha deserta
dos meus amores
perdida
no tempo esquecido
só as lembranças ficam
de dores
no arquivo
do que tinha querido.


e tanto era
que nem por isso dera
e tanto foi
que nem por isso já é.


correntes da fera
mar que me viu chegar
e me viu partir...
foragido
dum crime não cometido
e do amor
entre as sombras
do destino.


mar... sem par
de concha fechada
no último suspiro
findo
onde a luz incide
focada
mas afundada
ao lado do areal
e não se olha
não se rapara
é qualquer coisa banal
extinguida ao pensamento
como chuva torrencial
escoada por entre areia
vincando um rasto
ou lamento
entre os coqueiros e o matagal.


aí estás,
diferente do que eras
minha
tão mudada na invasão
tão suja
que pareces
tão triste da multidão.


olho-te
na memória mais rebuscada
e como um sonho parado
não vejo a alvorada
a cor
e o cheiro anelado
abraço desfeito
do enlaço
que foi nosso
sentido a cada passo.


aquela ilha
tão pura
harmoniosa
natura
já é passado
no preciso momento
começado e acabado.


tenho-te num abraço
apertado
mas já não estás
já não és
levou-te o vento
como me leva o pensamento
para longe
mum tormento.


adorava ficar
mais tempo
aconchegado
à memória
tirar partido
dum só momento
que dos teus lábios
presos
saíssem gritos de contentamento
do amor que foi
mas nunca o cheguei a ter.