sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

amores-perfeitos

(por vezes procura-se sem se saber o quê)

fui à feira-da-ladra à procura do poema
a chuva encharcava a distância
toda a rua era pejada de misturas
e o poema andava pelas escondidas
amarguras.
a tarde já ia longa e longa era a espera do achado
no desencontro das palavras os guada-chuvas
toldavam as distâncias e
as sílabas saltitantes
eram peixes de boca aberta
nos pingos caídos das algibeiras
dos vendedores e vendadeiras
entre a multidão vi um mendigo
e perguntei-lhe pelo paraíso
não me respondeu
mas olhou-me intensamente
na visão alarmante dum louco
(mal sabia ele que por vezes a verdade está no meio da loucura)
mas quanto à procura
nada 
nem vestígios de algum dia ali ter estado
ou passado
já a minha esperança era sumida
quando
pela mão duma criança
eram desprendidas bolas de sabão
...e então reparei
ali estava à vista desarmada
o poema translúcido de suaves cores
em arco-iris de amores (perfeitos).




3 comentários:

  1. Amigo,

    Comentei o segundo e não tinha visto esta nova
    postagem.
    Que poema maravilhoso, posso dizer um poema perfeito,
    uma inspiração que nos guia e toca na emoção sublime
    do olhar do poeta, da poesia que desnuda numa
    humanidade encantadora.
    Parabéns por este voo poético!!

    ResponderEliminar
  2. por vezes a poesia faz-se de esquiva, sim.
    mas tu és Poeta, de verdade.
    percorre cristalina as tuas palavras - e genuína como "os pingos caídos das algibeiras/de vendedores/vendedeiras/

    um encanto de poema.

    abraço

    ResponderEliminar
  3. Quantas preciosidades há no que parece não prestar para nada!
    Bom fim de semana para si!

    ResponderEliminar