domingo, 28 de agosto de 2016

o medo

o medo

foto LuísM



quem és tu,
que me atormentas na curva
da noite e me fazes olhar os cantos da solidão?
quem és, figura plasmada na parede do meu quarto, em sombras e escuridão?
quem és, que não te vejo, alma sem corpo e sem chama?

todos os sentidos despertos não chegam para te lançar a mão.

vives em mim, por magia ou por minha cobardia.

desejava enfrentar-te um dia...
dizer-te que a minha vida só a mim pertence,
que dela farei tudo o que quiser,
mas nunca de teu escravo serei.

o medo, esse, ficará eternamente preso ao fundo do mar, onde..., espero, nunca chegar.
e é à superficie que respiro a vida, que olho as estrelas de outros olhos.
e é na paisagem deslumbrante das cores que o meu mundo é claro.

fico à espera, acordado, pela resposta que não espero.
assim, descanso, sabendo-te o reflexo meu em espelho.



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

rosas negras

(a propósito de um artigo, hoje lido nos jornais):




<<O vosso público, por sua vez, não tem a sensação do perigo iminente - é isso que me preocupa. Como não compreendem que o mundo está a ser puxado numa direção irreversível? Enquanto eles [a maior parte do establishment político-militar ocidental] fazem crer que não se passa nada. Já não sei como hei-de comunicar convosco».
Vladimir Putin







«Estou preocupado, muito preocupado, com que estejamos a caminhar como sonâmbulos para qualquer coisa de absolutamente catastrófico».

Sir Richard Shirreff

....


as rosas de todas as hiróximas

sangram as negras rosas da madrugada
asas de corvos em sombras estendidas


- planície do nosso descontentamento -


verdes águas paradas,
entre margens assombradas
nas florestas petrificadas
confunde-se o tom da superfície com prados enriquecidos
e a ponte é uma passagem para o céu de outra miragem
o horizonte é um manto fúnebre de tempestade
ouve-se ao longe o mar num cadênciado martelar
e a maresia traz um gosto a lágrimas de sal

... no vento nuclear.

já não há como evitar tão densa noite
onde seria dia...
nem um só pássaro sobrevoa as escarpas do além
e este rugido do interior da terra
ouve-se na revoltada planície
como um grito de dor
... não mais crescerá uma só flor.

tacteio essas sombras com mãos caídas
pela áspera rocha vertida na paisagem
e na sombra projectada há pombas brancas agarradas:
cinzas e pó
de extintas manadas.

manchas de musgo e répteis
traçam pinturas rupestres
natureza viva-morta da vida volatilizada.

meus olhos já pouco enxergam...
mas ainda vêem os minutos finais do planeta terra...

...e a loucura dos homens
...com as suas bombas destrutivas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

(a)gosto

foto by luísm









à minha frente o tejo
e a canícula deste agosto
no banho desejado do teu beijo.

...mesmo um só, mas de gosto.

há noites assim: dorme-se mal
e as manhãs são um vendaval.

acorda-se "encurrucutado"
com o corpo e a mente de lado

a luz intensamente clara
fere os olhos cansados 
já de si tão amargurados

dorme-se mal com o calor
e todo o sonho não ė isento de pavor.

toma-se uma "bica" para despertar
mas o desejo é de outro lugar

trocar este rio por fresco mar.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

sete razões


foto by luízm

sete e zero são setenta
sete escrito na sebenta

sete mares, sete lares
sete continentes aos pares
sete destinos sofridos
sete encantos escondidos

sete saias, sete aias
sete corpetes letais
sete dias, sete noites
sete castigos e açoites

sete ais...

sete princesas escravas
sete morenas eslavas
sete anos, sete enganos
sete farrapos de panos

sete palácios reais
sete pecados mortais
sete livros proíbidos
sete paraísos perdidos

sete virgens...

sete segundos vividos
sete pães repartidos
sete pontos cardeais
sete extensos laranjais

sete promessas cumpridas
sete confissões sentidas
sete perdões merecidos
sete pecados indefinidos

sete mundos, sete sois
sete partihas e farois
sete poderosas irmãs
sete terreas riquezas vãs

sete tribos de jerusalém
sete diferenças do além
sete igrejas e mesquitas
sete sinagogas e ermitas

sete pastos na montanha
sete pastores na ordenha
sete ovelhas no redil
sete cordeiros em mil

sete crueis chacais
sete afiados punhais

e...

sete lobos no covil.