sexta-feira, 23 de junho de 2017

lágrima de sal




e era azul
e era céu
e era ar
e era puro 
se fosse amar.

e este mar
verde caldo 
a latejar
e as ondas sem fim
constantes
a empurrar.

partiste
sem um adeus
e sem asas
para voltar.

e dos teus olhos
ficou só o que sabia:
lágrimas imaginárias
sem um olhar.

sábado, 3 de junho de 2017

das palavras (re)colhidas




planícies
cortadas ao vento
no beijo
da manhã
fresca
das nascentes.

e nos cabelos
um rio
de odores 
de ervas 
e terra.

entre os olhos
semeadas
as palavras
em silêncio
amadas.

para os dois
os frutos 
colhidos
entre os dedos.

[Nota: Um arreliante problema criado por recentes actualizaçõs do Google impedem-me de publicar comentários.

Pelo facto peço as m/desculpas.]

domingo, 28 de maio de 2017

[...]

perdem-se os rostos na memória dos tempos 
e o percurso de velhos rios
cansados, já desconhecem
nascentes.  
sou floresta de folhas caídas 
nas margens da incompreensão.

procuro a memória da minha própria infância, tão longínqua 
como os caminhos desconhecidos.

olho a minha sombra projectada
nas horas amargas
e nem os meus passos reconheço.
........

os pés poisam 
num tapete de pó 
que tudo mudou
para eu ficar só.

o esquecimento 
é uma viagem feliz
vive-se o momento
que se faz... e se quiz.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

para momentos de felicidade


meia-dúzia de ostras frescas
meio-dia e um limão
à beira da praia
um cadeirão
ora, dois, pois não...
e uma garrafa de moscatel
'estupidamente' gelada
já agora um guarda-sol
- tragam manteiga, p.f.!

tudo o necessário para sonhar
que ao meu lado hás-de estar.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

horizontes

o sentido da vida
e o marejar
em tanto mar...

o despertar 
a um olhar
a onda que vem
a onda que vai...

o amor que se tem
num mundo de desdém...

e o cansaço
tanto
o cansaço
que asfixia
no indesejado abraço...

mas o sonho é isso
no rosto duma criança
o sorriso.

a recompensa
a esperança
e a certeza
que um amanhã
fará diferença
pelo bater da poesia.


sábado, 6 de maio de 2017

[...]


Anna Brigitta Kovács_aguarela

eu sei 
que as palavras que inventei
outras eram 
que não aquelas que te dei
mas não sei 
quantas vezes eu tentei
dizer-te o quanto te amei.

e bastou uma só palavra
uma só vez: "- amo-te!" 
(como nunca te amarei)
palavra que não gastei.

o que ficou por dizer
os meus olhos 
a cada momento
hão-de fazer-te compreender
que o meu amor por ti
é até morrer.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

balança dos faraós





finitude da vida 
e o balanço
do bem e do mal.

pesar o coração
na passagem
onde as almas dos justos irão
para a outra margem.


.............


Na religião egípcia, Maat ou Ma'at é a deusa da verdade, da justiça, da retidão e da ordem.

É a deusa responsável pela manutenção da ordem cósmica e social, filha (ou mãe) de e esposa de Toth (alguns escritores defendem que o deus-lua Toth era o irmão de Maat).

Ela é representada como uma jovem mulher ostentando uma pluma de avestruz na cabeça, a qual era pesada contra o coração (alma) do morto no julgamento de Osíris.

in: wikipedia

terça-feira, 25 de abril de 2017

a velha foto

cama de fogo em lar de pedra
cinzas de um lugar esquecido
e o fumo negro dos tempos
onde tudo é escuridão
entre a candeia
a prateleira e o panelão.

olho a preto e branco a fotografia antiga
na minha mão
picada nos cantos por alfinetes espetados
e tons manchados
no amarelado fumado
dos tantos anos na cozinha em exposição.

dum pequeno rasgão 
sobressai uma costura em linha fina
como se não houvesse perdão
para uma imerecida desunião.

quantos olhares se fixaram
quantos desejos se esfumaram
quantos beijos se perderam
na única e física recordação?

(fotografia do casamento dos meus pais em casa dos meus avós)


terça-feira, 18 de abril de 2017

...

por ti espera a primavera
ela já chegou
tu é que estás atrasada.

vem

porque ainda podes correr
e deixar para trás
as angústias invernais
do teu desassossego.

nesta estação

passam flores e odores
que te alegrarão o coração.

e, além disso

mulher
a minha vida é uma espera
que por mais ninguém desespera.


domingo, 16 de abril de 2017

ilhas a navegar

rio 
que cavalgas memórias
e fazes lembrar 
as velhas estórias
doutro navegar
num tempo e num espaço
que fora raíz
e antes semente
pequena floresta
a caminho da foz 
num passo dolente.

lembras 
viagens antigas
de ilhas suspensas
desprendidas
pelas chuvas intensas
das margens feridas
descendo ao olhar
num suave abraçar
pelo extenso mar.

e os crocodilos ao sol a temperar 
olham  de terra o estranho habitar.


sexta-feira, 7 de abril de 2017

odores






murcharam as rosas
colhidas 
no apogeu da vida
oferecidas.

e... 
nas tuas mãos
só o odor
ficou
dessa dor.


domingo, 2 de abril de 2017

laços

Andei a vida toda atrás do teu abraço
Sem saber que todos os caminhos
percorridos
Eram destino do nosso enlaço.

E os desenlaços meus
nunca foram (os) teus.


quinta-feira, 23 de março de 2017

sete vidas e um senão


No meio da ponte
Sete rios convergentes
Sete sentidos descendentes
E a fonte

No meio dos seios
Sete vales emergentes
Sete pulsares latentes
E os meios

No meio da ilha
Sete vulcões fulminantes
Sete caudais rompantes
E a quilha

No meio do poema
Sete sílabas afiadas
Sete sombras perfiladas
E o diadema

No meio da vida
Sete anos de servidão
Sete aros de comunhão
E o ermida

No meio do céu
Sete partilhas estrelares
Sete mundos anelares
E o véu.

Quanto mais se destapa
Tanto mais tapado fica. 




quarta-feira, 15 de março de 2017

branca rosa



Foto Luís M

das rosas que te dei
uma foi a que amei
e essa branca rosa 
tão rara quanto minha
tinha espinhos tinha.
- pena não ser mimosa!


terça-feira, 14 de março de 2017

a espera


Todd Williams

a hora não era  
(ainda)
e antecipava-te
na espera.

e a ausência
no tempo
que em ti era
era amor
que tivera.

......

Nos meus gestos matinais levo o dia 
ao quarto escuro do sono
Olho a penumbra à minha volta e, onde estiveste, permaneces.
Quero chamar-te na suave carícia da palavra sussurrada
E o torpor do teu corpo adormecido
contamina-me a mente.
Saio pé-ante-pé sabendo quanto dói o abandono.
Quando, novamente, chegar a noite,
deitar-me-ei
Para, no acordar, sejas o teu corpo e tua mente por inteiro.


sábado, 4 de março de 2017

interioridades


Na minha terra não há rios
nem há mar
deixamos de os escutar
Na minha terra não há sorrisos
nem olhares
só gente idosa sem seus pares
Na minha terra não há festas
nem cantares
foram-se as vozes ao emigrar

Na minha terra há só um fim
a espreitar 
no interior o deserto a chegar.




domingo, 26 de fevereiro de 2017

o cansaço


graffiti_imagem net


a separação do beijo a se querer dar
as palavras incendiadas na charneca
os sorrisos que a bruma tapa ao olhar

e no teu rosto, amor, o cansaço   
estampado na dolorosa seca.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

sem título

eu era estrada
era memória
onde passavas
e eras história

hoje fechada
a dita estrada
não resta nada
no que amavas

olhas o céu
e a cor azul
lá para o sul
desapareceu

como morreu
o verde mar
no teu olhar
que era meu

a noite é feia
e o vento cala
a mesma fala
a dor da ceia

o que fizeste?
o que fiz eu?


pastoreando a vida



deram-te os calos na mão
uma capa e um bordão
uma cabra, uma ovelha e um farnel
e deram-te também um velho cão.

onde esperavas encontrar mel
a vida só te deu um companheiro fiel.



Amadeo...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

o espelho

[a escuridão]
"quanto maior é, menos se vê."    

Foto luís_m.


espelho negro diz-me o que vês
na pequena chama, essa que lês
o destino não está ainda acabado.

penumbra que o oráculo esconde
dá-me uma razão válida por onde
minha antiga chama viva em fado.

perceptível é o tempo na despedida duma certeza
e sempre triste quando se apaga toda a beleza.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

prece


tem cuidado...
o tempo está mudado
o piso está molhado
e a rua só tem a lua
em chama quase crua
na penumbra do asfalto
onde a vida é um salto
que nos leva lá ao alto.

tem cuidado...
repara nos sinais
pensa um pouco nos teus pais
não conduzas distraida
em estrada sem saida.

tem cuidado...
preciosa é a vida .


sábado, 4 de fevereiro de 2017

1578_ O Desastre


Al Quasr al-kibr_autor desconhecido

Al_cansada nos punhos
A espada
E nos campos
A batalha.

À solta cavalos alados
Nos prados
De areia.

E o jovem Rei 
Já morto
E na Pátria o desgosto.

Nevoeiro nunca dissipado
Na espera
Do embuçado.

Triste Fado este
Em Al_Cácer fadado.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

depressão


Pablo Picasso_Mulher Adormecida com Persianas (1986).

dizes que a manhã
é vã 
e que de pouco vale
o mal
de sair em esforço 
do poço.

escuta:
- o sono é ante-câmara da morte
  e a vida não espera a tua sorte!




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

meu corpo é um mapa

foto net


basta-me saber
que te guias
pelo mapa que sou
de pontos e traços 
nas inscrições
de beijos e abraços

em qualquer lugar 
de dia ou de noite
com ou sem luar
tens-me
na estrela polar

e se te perderes
numa estrada sem fim
é porque já não existe
essa luz em mim.

domingo, 22 de janeiro de 2017

cidade em chamas

Nero_Imperador Romano


arde a cidade 
no império capital.
feras soltas
mostram os dentes
de nuvem 
de ódios a pairar.
roma moderna
dividida de nero cheiro.
(e o mundo aguarda...)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

o silêncio do dia

fotoLuísM

nem um pássaro 
voava 
nem uma palavra 
poisava 
nem um sorriso
crescia.

e a manhã 
era uma criança
no vazio do dia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

interiores

Almada Negreiros_Interiores
navegar...
navegar
sem margens
no interior
deste mar

na pele o silêncio
no sonho o olhar

e por cada légua
a linha distante
equatorial

um chão espelhado
no ar um jardim
de traves suspensas
e aromas sem fim

perdem-se os sentidos
dos medos retidos
e por cada rosto
passa um sorriso.

(dum porto sentido  para outro havido)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mário Soares

O Presidente de Júlio Pomar_ Museu da Presidência da República

Mário Soares (1924-2017)


O Homem - animal político -
É o tamanho da sua Obra.

Com consequências
Nas roturas
E decisões.

E no ritual da morte
Condensa-se
A Vida em horas.

Tudo tem o seu Tempo
Marcado
No ciclo criado.

E fecha-se o livro
Para a História compor.



domingo, 8 de janeiro de 2017

contra-ponto

"solidão...
essa sensação que tudo foi em vão
e que a vida, já cansada da estrada,
fere a existência...e abre o vazio."
(comentário meu a um poema)

fotoLuísM

contra-ponto

os meus pés percorrem 
passo-a-passo
a existência que ganhei...

e a estrada está para além
do horizonte que sonhei.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

despertar

Eva Gonzalez _ despertar


hoje levei-te um beijo
ao acordar do teu sentir
e soube-me bem
despertar-te sem pedir.