quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Partida

Vera Cruz.
Não é Terra
não é Luz
não é Serra
não é Mar
não é Sonho
e nem é Ar.
É um barco a se Afastar
do Molhe.
Nele Parte
a Navegar
quem me deu Arte.



Pai...vês-me?

Esta noite sonhei contigo, pai:
Era eu pequeno e tu jovem em pé
davas-me a notícia da nossa partida.
Serenos ficámos olhando o espaço
entre mim e ti e os meus olhos sonharam
o que os teus desejavam.

Apesar dos meus medos 
desejava desvendar contigo futuros segredos.


domingo, 19 de outubro de 2014

ode II

a onda que vem...a onda que vai
o sonho que se tem... o sonho que se esvai.

I
em mar deitado
o sonho expirado
a areia molhada
a onda calada
um barco à deriva
sem a sua diva
as conchas no ar
a quererem pairar
gritos de gaivotas
nas ilusões mortas
e um horizonte
de rio sem fonte
espelhando o céu
dum azul só meu.

II
o mar deitado
a areia molhada
o sonho expirado
a onda calada.

um barco à deriva
nas conchas do mar
sem a sua diva
a querer pairar.

gritos de gaivotas
frente ao horizonte
em ilusões mortas
como rio sem fonte.

o céu espelhado 
de doce momento
um azul raiado
neste firmamento.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

ângulo raso


Sou mais pessoa com Pessoa
mais feliz por aquilo que não fiz
habito a mesma cidade, Lisboa
e ela, bela, é a minha meretriz.
(é bela, a terra que sempre quis)

A solidão não a tenho nesta mão
mas sirvo-me da doida desilusão
do tempo voado, parado, queimado
em que escrevo preso ao meu Fado.

Sonho igual, no sonho inacabado   
entre gente,  de não ser inteligente
poder servir-me de mim mesmo, do
querer pensar e algo de novo criar.

Já tudo foi inventado...acho eu!
já o mundo foi recriado...mudado
já o sonho é agora alienado...finado
mas há sempre nova forma de o ver
num prisma, numa lente, num olhar
para sentir que o posso ainda amar. 


espelho

Eu sou eu mais o espelho só meu
o outro por fora e dentro sou eu:

dois mundos, 
dois tempos, 
dois espaços
naquilo que sou,  
naquilo que sinto, 
naquilo que faço.

vivendo um só mundo, 
estando um só tempo, 
ocupando um só espaço,
uma só dimensão

sou só uma viagem por dentro da luz!...


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ode I


a minha visão é o mar
o meu sonho navegar
minha prisão o cantão
fechado na minha mão
já percorri os oceanos
terras distantes de anos
já bebi todas as águas
nos rios e suas fontes
já subi todos os montes
e senti toda as mágoas
só não saí onde estou
no mundo que me restou.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

santo antónio

virgens de dores, pétalas doces, saga, em corpos soltos
oh clamores, perdidos somos entre a bruma dum simples olhar
para aí parar, sempre a pensar com o coração preso ao falar
andam as ruas a desabitar toda a fauna dentro do mar
e toda a forma a desenhar um risco unido no horizonte
perpendicular rasgando o céu em cores diletantes até aos montes
a zebrar a planície estendia em frente que é esse rio com sonho a mar...e a cantar. 
oh alegria no sol a espairecer na urbe construída para te amar
e nas janelas entre vielas há uma paisagem a renascer
roupas em velas e as calçadas presas ao olhar e nelas se concentrar
saltam cantigas a desfolhar vozes prendadas entre o luar
é todo um coro a deslizar no nosso rio a festejar
sobem balões a contentar olhos rendidos ao seu vagar. 

pátios antigos de mouros hoje estendidos no sangue herdado
toda a reconquista e o cruzamento de bela vista forte presença
e as ruelas estreitas e singelas entre o abraço a curto passo
fintam os rostos muito bem postos no seu andar quase a passar.



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

o saber

O que não sei, não me poderá fazer mal,
mas o que sei, poderá fazer-me bem.

Lastimo não ler todos os livros do mundo;
quantas coisas que poderia vir a saber,
quantas verdades ou mentiras,
teria ocasião de apreender.

Seria um sábio, ...sem qualquer utilidade! 



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

entre o sonho e o mar

foto:luís castanheira
rebentos dum rio
nascidos em fio
doces as águas 
e agora salgadas
correm pelos vales
em flores de amores
e esses rebentos,
irmãos
todos os momentos
crescem em arribas
de mares por medidas
juntos espreitam
futuros sombrios
com nuvens de maresia
em doce utopia
entre praias de sonhos
e pesadelos medonhos
é um Marco de vida
e uma Soraia rendida
aos encantos
da inocência ainda retida.

entre o futebol,
a escola e o sol
há toda uma praia
em maré viva
ferida
há uma ausência
um vazio
não apreendido
mais tarde lembrarão:
o pai no seu ganha-pão
trabalho suado
em terra distante
sozinho
como emigrante

riba mar
terra a levantar
- que o mar não tem medida
e o seu sonho é navegar -
com ventos que se hão-de criar
e só a terra os pode parar.

e estas crianças
que hoje sorriem
terão um destino
por nós consentido:
a emigração
por não terem pão.

( na lourinhã,

 homenagem a uma jovem mamã
na coragem da manhã)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

o meu velho avô

- oh, meu velho…velho avô!
meu longínquo e saudoso quintal
casa dos meus avós, jardim e pomar
chão povoado do meu encantar
histórias contadas do bem e do mal.

bebi a cultura em sábia ternura
enquanto no rosto cansado espremia
pontos negros na amargura do dia
do meu avô em palavras de doce frescura.

sentado ao seu colo sob a laranjeira
ouvia as histórias de quem sabe encantar
em memória culta e voz de espantar
falava dum mundo todo ali à beira.


então menino, vi-o a última vez
do banco de trás da velha camioneta...


colado ao vidro e pescoço torcido
olhava o asfalto e a velha silhueta
como um animal tombado em valeta
destroçada a alma e coração ferido.

todos nós partimos ficando sozinho
com a companheira, ali desterrado
velho, muito triste e deveras cansado
sem receber a dádiva do nosso carinho

(hoje é a minha lembrança; o seu nome, Frederico)

(fraguemento)




luzes na escuridão

o que dizem os teus olhos
em voos de assombração?

trémulas luzes vertidas
em dois planetas de mar
que não querem navegar

perscrutam o meu coração
nas memórias já perdidas
planam como dois faróis
em ausências já sentidas
nas sombras de extintos sóis.





sexta-feira, 22 de agosto de 2014

límpida a madrugada

era belo o sonho intenso e puro
criado ao longo da noite de frio
onde a madrugada sempre adiada
tardava em primavera acordada.
mas o sonho desenraizou-se do muro
desfazendo-se no leito do rio
e a enxurrada desceu à cidade
lavando-a de toda a sujidade.

hoje, novos muros são levantados
aprisionando outros sonhos alados.



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

lá longe...

foto luís castanheira

As estrelas que eu vejo não são as mesmas
que tu quando parado vês olhando o chão
esta terra que os pés te beijam já nos deu pão
mas agora cá longe dá-nos tristezas 
... e solidão
não, 
não são as mesmas, essas estrelas que eu vejo
e tu não
- não, não são!

Tu olhas cabeça baixa onde o céu é o teu chapéu
e à tua volta é um deserto nas ideias e no concreto
afogas a pouca esperança e a confiança, isso eu veto!
tomara eu poder mudar o que não é meu
tomara eu...

(vou dar um passo, ler os clássicos onde está tudo...
mas posso dar-te aquele abraço! )


terça-feira, 5 de agosto de 2014

oleiro

foto luís castanheira

De fino barro moldaste
e o futuro torneaste.
Oleiro de corpo inteiro
olha a obra acabada
criaste uma alvorada
na subida do outeiro.

Pobre terra de emigração
onde caminhei pela mão
fui contigo em pensamento
em terra de novos horizontes
e sem haver tantos montes
voei livre como o vento.

Já não sei por onde paras
mas hoje recordo o tempo
das feridas que já não saras.


LM_17.fev.2014




segunda-feira, 28 de julho de 2014

os olhos na serra


curvas sinuosas de noite e luar
com os lobos na serra a uivar
reflexos ténues de olhos aos pares
e eu, marinheiro, imaginando outros mares
sonhando o silêncio na estrada vazia
na moto seguia, criança, por estreita via.

(mas era o meu pai que a conduzia...)



quinta-feira, 17 de julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

janelas abertas

foto: sofia almeida
na copa das árvores oiço o vento
como se o mar ali batesse perto
do rugido de ondas e mar aberto
som parecido como um lamento
murmúrio que acalma mas não vejo
o porquê de tão intenso e profundo desejo
como um lampejo 

- é a música do meu Tejo!

LM_



segunda-feira, 7 de julho de 2014

o momento

foto: luís m castanheira

momento a momento
...a cada momento
único no firmamento.

é esse momento
que o olhar perscruta
e o ouvido escuta
e o coração guarda
e a vida acontece...
desejado em prece
onde a paixão arda
somado a tantos
ou em rios de prantos
que o sorriso nasce.

(dedicado à Sofia)
26 de Maio de 2014 às 21:31



quinta-feira, 3 de julho de 2014

o ninho da serpente

YaxchilanDivineSerpent
lisboa_museu da cidade_luís castanheira

voz empolgada
logo à chegada
olhar ausente
vazio em frente
espaço perdido
sem um sentido
ontem real
hoje fatal

o mesmo espaço
o mesmo passo
outro discurso
o mesmo curso
como é penoso
pernicioso
ouvir o mesmo
noutro compasso

LM_jul.2014




quarta-feira, 2 de julho de 2014

in memoriam

foto: luís m castanheira
o mar foi o teu olhar
tua paixão
na pena do poema 
no coração
e a liberdade
fez-se verdade
na tua mão
cada palavra
vertida
sentida
no verbo amar

(para a Sophia hoje no panteão)

LM_02.jul.2014




segunda-feira, 30 de junho de 2014

cardos


foto: luís castanheira

são cardos, Senhora, são cardos
nos  ombros espetados em pesados fardos
e um passo penoso pairando o destino
sobre os campos de pedra e a altiva serra
com frio que medra no vento que ferra
e o sonho voando dentro do abismo
este que Vós veis já desde menino

…e o rio não nasce no tempo escolhido 

LM_ 30.jun.2014


sábado, 28 de junho de 2014

já fui...quase tudo


sofia almeida

Já fui poeta sonhador aos olhos teus, meu amor
Escrevi poemas de louvor com palavras eloquentes
E um travo doce de sabor. Foram tantas as sementes…
Do sentimento lançado ao centro do teu regaço acolhedor.

Já fui garça branca em flor voando o perfume e a cor
Nos cachos de fruta ao redor do corpo vertical e o sol a pôr
E nos teus lábios a palavra amor. Oh como é e se sente
A paixão palpitante de ser ausente e estar presente.

Já fui arquitecto desse projecto: vida a dois, sorriso aberto
Uma paixão a transbordar da minha mão. E essa construção
Fez-se então. Estrada fora num passado que é agora mão-a-mão
A caminho do futuro onde estaremos seguros e ali bem perto.

Já fui viajante nas palavras. Por dentro delas expulsei a solidão
As terras que cultivei eram áridas,
mas cruzei -as com suor em noites cálidas.
- e era tão fácil deixar-me seguir rio abaixo em turbilhão…! -
O luar de Agosto espelha-se na visão constante do teu rosto, 
os olhos negros e as faces pálidas.

Já fui o teu porto de abrigo onde ancoraste o teu sentido.
A tormenta adolescente desse perigo. Chegaste e em mim paraste
E em mim hás-de ficar. Não mais terás esse caminho perdido
Não mais estarás sós - duas mós, moinho d’água onde ancoraste.

Já fui pintor da alma em suaves tons, quadro indelével da vida
E fiz chegar em doce harmonia o som do mar aos teus ouvidos
Esse mar com o condão de acalmar os demónios d’alma ferida.

Agora, vou-me banhar na noite envolvente do teu amor
e não dês os nossos tempos por perdidos, por favor .

LM_21.jan.2014


amar

foto: luís m castanheira

amar... a alma armar

ser e estar sem desatinar

presente som, em hora ausente
olhar e ver       o outro na mente
e nele se rever como o melhor da gente.


LM_12.dez.2013


estrela

foto Nasa




Há no ar um doce cheiro de luar
Uma suave luz que a ti me conduz
Um desejo premente de ver e olhar
Olhar que me vê no amor que produz



Há milhares de estrelas à vista de vê-las
Mas, ao contrário delas, tu és bem agora
Não te quero perder, nem a elas perde-las
Vocês ficam bem no horizonte da Aurora.

E, não fora o caminho, longo do destino
Levava-te a elas, com todo o carinho
Como uma bandeira de fiel peregrino
E aí igualavas na luz emanada do teu arminho,
Branca como o linho.


LM_12.dez.2013




fantasmas

foto: sofia almeida

Meigo e doce luar
a noite vens acalmar

acalma-me a alma também

fantasmas que ela contém.

LM_12.dez.2013


quinta-feira, 26 de junho de 2014

espelho

luís castanheira
No lugar do outro
como num espelho
no extremo da vida
olho para trás
e vejo-me nu.

Despido de mágoa
sem pinga de água
seco como um rio
em deserto frio.

Sou um imbomdeiro
carregado de mukua
a minha acidez
provém da aridez
na terra que pariu
em chão que ruiu
debaixo dos pés
tudo de revés.

Sobrevivo ao tempo
com a secura do vento
olho a planície
de imenso capim
à espera de incêndio
que lhe ponha fim.


LM_17.maio.2013


pomba negra

foto: sofia almeida


olho a cidade despida
oca e quase perdida
as ruas desertas de vida
na crise por todos sentida.

mas eis que sobre mim voa
uma pomba negra sem coroa
rainha desta avenida
linda como é a vida.

pomba negra voando na avenida
és a mais bela na minha vida
planar de elegância e vitalidade
dá a esta pobre realidade
cidade vazia de gente e perdida no presente
uma vivacidade que retenho na minha mente.

é um domingo de Abril
na recordação de cravos mil
memórias um pouco esquecidas
nas gerações ora perdidas.

LM_


quarta-feira, 25 de junho de 2014

A luz


foto: luís m castanheira

I

Passa por mim o pecado
O momento ora parado
De não estar a teu lado
Dar-te a mão, ser-te amado.



II


À luz dum candeeiro
Na rua do meu desejo
És figura por inteiro
És o sonho que almejo.

Rua da minha cidade
Onde a noite é ternura
Espalha-se uma saudade
D’outras noites de ventura.

Sombras… são só sombras
Ou serão folhas de vento
Não certamente serão pombas
Talvez penas do meu tormento.

Mas a rua é bem iluminada
Não vejo razão nessa ilusão
Espero o amanhã, por nada
Que não seja a tua visão.


LM_19.nov.2013






terça-feira, 10 de junho de 2014

pérola

fotos: sofia almeida e luís m.castanheira

Meu poema lavra
Numa só palavra

Com dedo espetado
Escrito na areia
Em praia molhada
Batida pela onda
Num mar de sereia
Este lindo fado.

Dilui-se o teu nome
Na espuma do mar
E aguarda o pronome
Para te abraçar
Diz o oceano
Que te quer levar
Que te quer amar…

Estendo os meus braços
Para te agarrar
És a minha pérola
E não posso deixar.
Fica no meu sonho

Não te deixes rasgar!

LM_08. mar.‘13


o riso

O riso apagado no teu rosto molhado
lágrima ácida dum pensamento presente
retido e só nalgum canto lembrado
bem fundo do ser e da mente
ou na vida amada que entretanto passou
em que esse tempo parou

quem sabe?

O teu riso apagado no rosto molhado
penso que seja um rosto presente
que traz à lembrança o rosto da gente
ou da vida amada, outrora premente
e hoje aqui está num tempo parado.

Sentir o Sol quente de Inverno,
olhar as colinas despidas de manto
e ver-te, tão perto, tão fria e distante.

Parece-me ontem, a sentir o encanto
que ainda esperta como um eterno amante
que ainda consola, que ainda transpira
que ainda respira

E vejo-te nua
e vejo-te linda
e vejo-te, como eu nunca te vi:
sozinha e insegura
olhando o vazio, muito triste, ainda
como se eu não estivesse aí
junto de ti.

Meu amor... deixa-me sair deste inferno!


LM_11.mar.97


"INDIA"

Fui ver a tua casa
Antiga
Bem perto da minha
Perdida
E veio-me à lembrança
Amiga
A tua voz
Sentida
A cantar uma canção
Antiga
Numa tarde parada
Em que escurecia
Mas a hora ficava
E não amanhecia

Era a voz Bahiana
Melódica
Que me comovia
E ouvia
Aquela canção
Preso à tua mão
Pela tarde que se ia
Como se já fosse outro dia
E o mundo parasse
Acabasse
Onde eu me perdia

Por junto ao regaço
Dava-te um abraço
Sentia o teu laço
E tarde comia
Porque adormecia
No amor que sentia
E a ti pertencia.


LM_10.Dez'97


Brisa

foto: sofia almeida

vem
vem, meu amor
vem
vem ver o mar
vem

sentir a doçura deste lugar
ver as estrelas
cheirar o ar
que a noite é nossa
e nada pode calar
este silêncio
do nosso amar

tardes do meu acordar
manhãs deitado a dormir
sonhos do meu despertar
que a vida é feita a sentir

e só assim se pode amar

LM_8.abr.2014


Ar

luís m castanheira

oh flor, oh doce amor               
oh regaço do meu enlaço
oh abraço
que calor
que sabor
que odor
desprendes ao teu redor.

e eu
preso a ti
aqui
por ti
respiro
essa vida
exalada
amada
medrada
que me tira do nada.


LM_ 01.10.97


Angústia

 luís m castanheira


Tristeza tamanha
Que me gela o coração
Sinto a chuva a cair na sepultura
Onde repousam os meus sonhos,
Mortos e enterrados,
Como uma ave caída,
Desamparada,
Após fulminada
Por tiro assassino
De quem fere sem alma.

Sinto os meus sonhos desfeitos,
Arrancados por mão tenebrosa,
Esventrado que fico,
Ao sabor deste vento norte.

E eu que era riso,
Tão cheio de Amor,
Tão forte,
Tão leve e radioso.
Hoje,
Essa minha alegria de outrora
Esfumou-se
Perdida
Na longitude da dor.

Hoje,
Parece que não existo.
Só sombras povoam os meus pensamentos.
Hoje,
É assim que estou... e que fico.

E amanhã ?
Como será o meu amanhã... ?


LM_08.abr.2014


amigo sem abrigo

foto: luís m castanheira

Amigo, sem amigo, sem-abrigo
Que carregas tanto peso contigo
Tens o descanso não permitido, indesejado
Dentro das arcadas dos prédios ora gradeadas.

O teu sono é pernicioso, é escorraçado
Tens de seguir para outras paradas
Tens de iniciar novas viagens
Ao interior dum corpo já muito cansado
E alma vazia, abandonada
Esfacelada.

Partes…, mas eu fico
A ver o inverno da minha mágoa.


LM_14.abr.2013


domingo, 8 de junho de 2014

Angola (órfão de pátria)

Nesse teu olhar
está um futuro por descobrir
uma esperança por raiar
um país por desvendar
um mundo por sorrir

Nesse teu olhar
criança
está uma guerra por acabar
com o princípio já perdido
sem saber onde findar

Nesse teu olhar
há a fome e a tristeza
há a perda da certeza
há a profundeza do mar

Nesse teu olhar
criança
há as minas
a dilacerar
há a morte
ao teu redor
há um cheiro
podre
sem parar

Há as moscas
- nesse teu olhar –
poisadas
na tua boca
fechada
sem dizer ai
e me obriga
os olhos a desviar

Nesse teu olhar
criança
há um olhar de sofrimento
muito mais do que um tormento
sem um som ou um lamento
e me obriga a parar

Tu
criança, órfã sem razão
que deverias andar pela mão
de quem te desse protecção
mas trazes ao colo e tomas conta do teu irmão

Fizeram-te esmorecer
sem sorrir
sem crescer
esvaziaram o teu sentir
a sofrer
com a profundeza dos teus ais
ora mudos
ora letais
dessa ferida aberta
da metralha nos corpos dos teus pais.

Será que os senhores da guerra
não tiveram pais?

Fechados no seu mundo
de chocante corrupção
só com uma única mania
de enriquecerem até mais não
e ali estão
de alma vazia
sem coração
sem visão
com o futuro
fechado
dentro da mão.


LM_.09.nov.99
(antevéspera do dia da Independência)


jardim...

Oh flor, oh flor do meu amor
Meu doce calor, cheiro e sabor
Meu jardim interior, sol e esplendor
Minha luminosa cor.
Meu paraíso sem dor.


LM_Abr.2013


Palavra-poema

Já poeta não sou
Já o sonho findou
Já as palavras gastei
As acendalhas apaguei
Já as muralhas destruí
E de mortalhas cobri
Já a vida findou
E onde o rio secou
Já a esperança morreu
E o mundo cedeu.

Mas é tempo de voltar
E é tempo de pensar
É tempo de criar
E é tempo de amar.

Deixar a palavra renascer
Deixar o mundo girar
Dar esperança ao entardecer
Num outro amanhecer.

Levanta-te poema
Grita aos quatro ventos
Que já não tens pena
Já não sentes lamentos.

Novas palavras correrão na planície
O sol encantará toda a tua meninice
Dar-te-á força nessa segunda caminhada
Descobrirás a natureza e a razão da coisa amada.

Poema, agiganta-te
Abandona a medíocre e ignóbil pobreza
Cala a fome da criança infringida e sofredora de tal vileza
Transforma o teu acto em sentida e verdadeira nobreza.

Poema,
Dá-te ao sonho, à felicidade e à riqueza
Dá-te à esperança, à luz e à beleza
Deixa a tua seiva escorrer pelas veias do teu ser
Deixa-me encontrar-te de novo. Não mais te perder.


LM_13-03-2013


sem valor acrescentado

escoam-se as águas
perdem-se as mágoas
desertos interiores
dos nossos valores.


LM_15-mar-2013


viagem

foto: sofia almeida

















Trazes nos olhos a branca espuma
Em marés vivas no meio da bruma
Trazes um mar por mim inventado
Sob um céu límpido e encantado.

Trazes o voo em sonhos planado
O amor construído e desejado
Trazes a voz a rasgar horizontes
Saltando por cima dos montes
- das serras, vales, rios e pontes -.

Trazes nos lábios o sorriso aberto
Inicio viagem num presente perto
Parto dum porto de cais profundo
Venço o espaço, o tempo e o mundo.

foto: luís m castanheira
Tenho -te presente em cada momento…

Em cada palavra que não digo
Em cada poema que não escrevo
Em cada pensamento perdido
Em cada sentimento sentido.

Rasgo a solidão, o medo e o perigo
Só quero a cada momento estar contigo.


LM_mar.2013