quarta-feira, 8 de abril de 2015

beijos amargos

beijos amargos

os tempos mudaram e às mulheres
já os beijos não são roubados,
são sequestrados ou assassinados, 
outras vezes,estilhaçados; às mulheres 
já só não se bate com uma flor,
bate-se com o ferro de engomar,
de qualquer jeito, com o que estiver à mão...
quem é que a mandou amar;
de quem é a culpa de ter filhos,
trabalhar em casa e por aí fora
de andar cansada de tanto transporte
- horas perdidas e no corpo sentidas -
quem tem de aturar o chefe
homem, pois claro, que passa a vida
a espreitar as oportunidades
ver se pesca em águas paradas;
quem tem de contar o magro salário,
chegar ao fim do mês e pouco dever;
quem tem medo de perder o emprego,
por outra vez estar grávida
- ai se descobrem, vou p'ro meio da rua! -
e logo agora, com o marido desempregado,
aos caídos, já sem subsídio?
e tem sido tão difícil, aturá-lo...
agora dá-lhe p'ra beber, 
não sei onde vai arranjar o dinheiro,
más companhias, lá isso, ele tem...
mas se o deixo, vai atrás de mim
até ao inferno (como se eu não vivesse
já no inferno), e tudo pode acontecer...
 mas que triste sina a minha;
a minha mãe é que tem culpa disto tudo:
pariu-me e fui atirada para esta vida,
sem poder escolher;
agora que futuro poderei deixar aos meus filhos?,
olhos-os e revejo-me neles, como me revejo
na pobreza que sempre me acompanhou;
cresci no meio de tantos irmãos, 
alguns foram ficando pelo caminho,
que a fome era uma barreira;
hoje desabafo, melhor, hoje grito
porque no peito dorido nada mais há.
já nem as telenovelas e o raio que os parta
me servem de consolação,
onde é que eu tenho tempo p'ra me sentar?
deito-me p'ra descansar, 
mas a noite deixar-me-á neste pesadelo!

Luíz M.Castanheira